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Enrico Pierro: O que precisa morrer em você - Rádio Ativa FM


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Enrico Pierro: O que precisa morrer em você

Ninguém gosta da sexta-feira. Não dessa. A gente gosta da ideia da ressurreição, da luz,
da vitória sobre a morte. Gosta do domingo, da esperança restaurada, da sensação de que
tudo vai ficar bem no final. Mas a sexta-feira da paixão é incômoda, pesada, desconfortável,
porque ela não tem milagre, ela tem dor. E talvez seja exatamente por isso que a gente
tenta pular essa parte. Na vida, a gente quer renascer sem passar pelo processo, quer
mudança sem perda, evolução sem ruptura, transformação sem dor. Quer chegar no
domingo sem atravessar a sexta, mas não funciona assim, nunca funcionou.

A sexta-feira da paixão é o retrato de tudo aquilo que a gente evita encarar: o fim inevitável
de algo, o peso de carregar aquilo que já não dá mais, o momento em que não tem mais
como voltar atrás. É quando a vida coloca você diante do que precisa acabar e, dessa vez,
não tem negociação possível. Porque tem coisa que precisa morrer. Não no sentido literal,
mas no sentido mais profundo e honesto que existe. Padrões que já não fazem sentido,
relações que já não se sustentam, versões antigas de você mesmo que você continua
tentando manter vivas por apego, medo ou costume. Expectativas que já não cabem mais
na vida que você tem hoje.

O problema é que a gente resiste. Segura. Insiste. Prolonga o que já acabou porque admitir
o fim dói, porque deixar morrer dói, porque aceitar que não volta dói ainda mais. A gente
tenta salvar o que já não tem mais vida, como se esforço fosse suficiente pra ressuscitar o
que já terminou. Mas não é. E é justamente nesse ponto que começa a transformação de
verdade, não aquela bonita e inspiradora que a gente gosta de postar, mas a real, que
acontece quando você aceita que algo chegou ao fim e decide parar de lutar contra isso.

A páscoa não é só sobre voltar à vida, é sobre o que acontece depois da entrega. É sobre o
que nasce quando você finalmente solta aquilo que já não deveria mais estar nas suas
mãos. Entre a sexta e o domingo, existe o sábado, e ninguém fala muito sobre ele. O
sábado é o silêncio, é o vazio, é o tempo em que nada parece acontecer, é quando você já
perdeu o que precisava perder, mas ainda não entende o que vai surgir no lugar. É a parte
mais difícil, porque não tem resposta, não tem alívio imediato, não tem sinal claro de que
tudo vai dar certo. É só você e o que sobrou.

E talvez seja exatamente aí que você esteja agora. Não mais na dor escancarada do fim,
mas também não na paz do recomeço. Preso nesse intervalo estranho, onde tudo parece
suspenso, onde você não é mais quem era, mas ainda não se reconhece no que está se
tornando. Se for o caso, respira. Porque o domingo chega, mas ele não chega antes da
hora. Não existe ressurreição sem morte, não existe recomeço sem fim, não existe vida
nova enquanto você ainda insiste em carregar o que já deveria ter deixado ir.

Então talvez a pergunta dessa páscoa não seja sobre fé, nem sobre religião, nem sobre
tradição. Talvez seja mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil do que tudo isso. O que,
dentro de você, já acabou… mas você ainda não teve coragem de enterrar?


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